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quarta-feira, 13 de abril de 2011

Pequenas Epifanias


por Caio Fernando de Abreu


Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa.
Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. Ela não desiste e leva bóias. E se ela se afogar, se recupera.
Estranho e que ela já apanhou demais da vida. Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta. E quem não é?
A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas?
A moça…ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando. Daí você espera por alguém que venha te curar.
Às vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. E pra ela? Por quem ela espera?
E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará.
A moça – que não era Capitu, mas também têm olhos de ressaca – levanta e segue em frente.
Não por ser forte, e sim pelo contrário… Por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Duas bolas, por favor!


Por Danuza Leão

Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir sorvete de sobremesa, contar os minutos até ele chegar e aí ver o garçom colocar na minha frente uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido.
Uma só.
Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa.
Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um litro de sorvete bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação.

O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano.
A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade.
A gente sai pra jantar, mas come pouco.
Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons.
Conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres continua com pavor de ser rotulada de 'fácil').

Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta.
Tem vontade de ficar em casa vendo um dvd, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar.
E por aí vai.

Tantos deveres, tanta preocupação em 'acertar', tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação...
Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão...

Às vezes dá vontade de fazer tudo “errado”.
Deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos.
Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito.
Recusar prazeres incompletos e meias porções.

Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado.

Um dia a gente cria juízo.
Um dia...
Não tem que ser agora.

Por isso, garçom, por favor, me traga: cinco bolas de sorvete de chocolate...
Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Explicar o inexplicavel...

Encho o pulmão de ar e grito publicamente que amo “Meu Bem”. Amo, simples assim. Não defino, não limito, nem julgo tal amor. O que sinto pelo “Meu Bem” é incondicional e esta acima de qualquer julgamento.

Sempre tive a necessidade de entender exatamente meus sentimentos em relação às outras pessoas. Uma necessidade inútil confesso, uma vez que o ‘sentir’ vai sempre muito mais além do que uma razão.

Há pouco pude compreender que não preciso entender nada, porque entender remete a uma definição, uma explicação, uma razão, e o que se passa em minha mente e coração não segue uma ordem racional que possa ser explicada.

O “Meu Bem” tem o dom de me fazer sorrir, de me fazer viver. O riso dele me faz feliz, como é contagiante sua alegria, como é vibrante sua energia. O “Meu Bem” faz o céu se abrir com um sorriso, e que sorriso... Lindo, quase infantil, totalmente despretensioso. Um sorriso solto da boca, ele sorri com os olhos, com as mãos, com o tom de voz, com as palavras...

Tão contagiante como sua alegria é sua tristeza. Ele tenta convencer a todos de que não fica triste, mas eu faço parte dos 2% que sabe que isso não é verdade. É tão angustiante sua tristeza, cada lagrima sua é um punhal sendo cravado no meu peito. Nunca sei o que dizer nem como agir. Sua dor pinta meu céu de cinza e declara minha impotência.

Eu amo “Meu Bem”. Já o chamei de MEU, já o tive para mim e essa nossa história já passou. Não é assim que preciso dele, não é assim que ele precisa de mim.

Eu só preciso da risada na mesa do bar, da voz sonolenta ao telefone sempre disposta a conversar. Eu preciso da bronca paras minhas manhas, dos conselhos para os meus dilemas, do apoio para minhas escolhas. Preciso da companhia para um show, das discussões sobre um bom livro e das indicações para novos sons.

Não nego o ciúmes que tenho do “Meu Bem” e ciúmes sempre sentirei, mas não o quero para mim. Quero “Meu Bem” para o mundo! O “Meu Bem” é o amor da minha vida e espero que ele seja ainda o amor de muitas outras também.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Atrevida!




E tem o seguinte meus Senhores: nós não vamos enloquecer, não vamos nos matar, muito mesnos desistir. Pelo contrário, vamos ficar ÓTIMOS e incomodar bastante ainda!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O que eu queria estar fazendo agora?


E quem eu queria ao meu lado?
Que historias eu queria ouvir?
E que sonhos queria contar?
De que piadas eu queria rir?
E que risas eu queria dar?
Que mundo eu queria conhecer?
E que universo eu queria estar?
Que gesto eu queria fazer?
E que carinho queria dar?
Que sentimento eu queria sentir?
E que amor eu queria amar?

sábado, 24 de julho de 2010

Furacão em mim...


Estou no meio de um furacão. Onde tudo o que sou e represento é jogado de um lado para o outro na minha cabeça, junto ao lixo que voa ao redor. Lixo esse, que entra na minha cabeça formado por informações demais, conversas demais, sentimentos demais, momentos demais, acontecimentos demais, coisas demais...
Minhas idéias mais brilhantes, pensamentos mais profundos e sentimentos verdadeiros começam a se jogar de um lado para o outro sem conseguir parar. O vento da confusão não os deixa parar.
E como num clássico furacão você não tem onde se segurar.
Por mais que você esperneie, grite, tente se segurar ou pedir ajuda, não há ninguém que consiga entender, não há ninguém para te segurar ou fazer parar o vento que sopra dentro de você.
O vento sopra as pessoas para longe de você. Elas voam pra longe do furacão. Tudo isso por que elas não entendem que num furacão o vento só sopra no vértice. No centro. No centro do furacão você está sozinho. Sozinho com você mesmo.
O vento uma hora pára, mas não tem hora para parar.
E as pessoas voam...cada vez mais pra longe de mim.
Se eu pudesse morrer no vento, morreria numa segunda-feira. Um dia comum, sem nada demais, sem chuva, sem sol, sem graça, sem acontecimentos, sem vida, sem confusão.
As pessoas não morrem as segundas-feiras, elas estão ocupadas demais pra isso. Ocupadas com suas próprias brisas.
Nunca ganhei flores. Talvez porque o meu vento seja forte demais para manter alguém disposto a ficar perto para me entregá-las. Talvez porque as flores ficariam sem pétalas.
Quanto o vento parar em uma segunda-feira, quem sabe, ganharei flores pela primeira vez.

sábado, 19 de junho de 2010

Poema à boca fechada


Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.


José Saramago